Crônica de um domingo quase sem futebol

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Domingo passado, fui toda animada para ver o meu primeiro jogo de futebol num estádio. Estádio Mané Garrincha, em Brasília, aquela coisa nova, imponente e bonita de se ver – por dentro. Em frente ao estádio, um estacionamento que não estava lotado, já anunciando a tranquilidade e diversão que deveria ser aquela tarde de domingo.

Mas eis que, ao sairmos do carro, um pouco a frente, nos deparamos com a maior muvuca na porta do campo, centenas de pessoas se acumulando para comprar ingressos para o jogo, que estavam sendo vendidos em uma vanzinha ali em frente. Sério mesmo. Um jogo num estádio com mais de 15 entradas, com capacidade para mais de 70 mil pessoas, teve seus ingressos vendidos num carrinho. Mas o detalhe maior não é esse. Na verdade, alguns pouquíssimos ingressos estavam sendo vendidos pela janela do veículo. Porque, na real mesmo, não havia ingressos, os ingressos não foram impressos. E sabe por quê? Porque a organização do Torneio Internacional de Futebol Feminino chegou à brilhante conclusão de que ninguém iria querer ver mulher jogando, mesmo que se tratasse das mulheres da seleção brasileira de futebol feminino.

Resultado disso foi assistir durante mais de quarenta minutos um público impaciente querendo que os portões fossem liberados – afinal eram mais de 50 mil cadeiras livres, por baixo, e nenhum ingresso para ser vendido – e só conseguir entrar no campo já no segundo tempo da partida.

Bem, será que o nosso santo machismo de cada dia deixa as pessoas tão bitoladas a ponto de não ver que: SIM, nós queremos torcer pela seleção feminina, SIM, brasiliense adora esse tipo de programa e, principalmente, SIM, nossas jogadoras merecem a mesma organização, incentivo, divulgação e espaço midiático que qualquer outra seleção?

E o que nós fazemos pelos 200 beagles?

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Foi realmente comovente a revolta virtual gerada pelo caso dos beagles e marca Royal. Quanta gente indignada compartilhando o Snoopy com a plaquinha “Testa isso no seu cu!”. Tantas pessoas revoltadas, não sem razão, inspiraram tantas outras a também registrarem seu pavor aos testes realizados pelas marcas com os animaizinhos indefesos.

Mas tanto auê me levou a uma pergunta: de todas essas pessoas, quantas realmente se dão ao trabalho de verificar quais marcas não fazem testes em animais, antes de comprá-las?

E olha que definitivamente não estou me “incluindo fora dessa”. Na verdade eu nem compartilhei fotos revoltadas sobre o tema, pois me senti incomodada para fazê-lo. Afinal, não me lembro de uma única vez em que deixei de comprar alguma marca pelo fato dela fazer seus testes em animais.

Pois então, do que adianta tanto ativismo virtual se isso não se reflete nem de longe na prática? Ora, só existem marcas que testam produtos em animais porque existem pessoas para consumi-las. Ou não?

Mas é tão mais fácil e prazeroso jogarmos toda a culpa em outra pessoa, não é? E se essa outra pessoa está sendo atacada de todos os lados aí é que fica gostoso mesmo. Parece que lavamos a nossa alma em saber que tem alguém pior do que nós mesmos e fazemos questão de deixarmos isso bem claro.

Logicamente, eu não sou a favor de testes que submetem os animais a maus tratos, assim como sei que é realmente motivo para indignação o que estava sendo feito com os pobres beagles e certamente precisamos de legislação mais forte e muita ação para conter esses absurdos.

Mas será que basta a gente compartilhar fotos revoltadinhas na internet e cinco minutos depois sairmos serelepes para encher nossas sacolas de produtos os quais nem sequer procuramos saber a procedência?

Esse ataque feroz e conjunto ao instituto que cometeu essas atrocidades me pareceu uma forma coletiva de forjar a nossa não culpa em também fazer parte desse ciclo de produção-testes-consumo. Um acordo que podia ser lido assim: Ei, filhos da puta são unicamente eles, que fazem isso com os bichinhos, e nós não temos nada a ver com isso. Consumimos sim, mas porque somos praticamente obrigados a fazê-lo.

Será mesmo?

Pelo aborto legal

Já pensou se as testemunhas de Jeová quisessem proibir todo mundo de fazer transfusão de sangue?

Ou se os adventistas do sétimo dia quisessem obrigar todo o país a parar nos sábados?

Pois pra mim a questão do aborto é bem semelhante a essas. Por que as pessoas querem obrigar todos a agirem de acordo com a SUA concepção religiosa? Por que eu nunca escutei ninguém defender a criminalização do aborto sem que não usasse sequer um argumento religioso? Se a minha religião não permite que eu aborte, eu tenho todo o direito de não abortar, oras!

Agora querer tirar o direito de escolha de outra mulher ou fechar os olhos para as barbaridades a que as mulheres e até crianças ainda hoje são submetidas por conta disso já é autoritarismo, ignorância, má fé e falta de amor ao próximo.