O enigma de Sochi

Ótima data para relembrar esse vídeo da ONU, que traz uma belíssima mensagem anti-homofobia. Afinal, hoje é o dia da festa de abertura das Olímpiadas de Inverno na Rússia, ocasião em que 44 chefes de estado irão aplaudir o país que tem jogado os direitos humanos no chão e os espezinhado até o último suspiro.

Como todo mundo já sabe, o país proibiu a propaganda gay em todo o seu território, o que na prática significa que, por exemplo, o andar de mãos dadas entre duas pessoas do mesmo sexo deve ser reprimido. Enquanto muitas instituições e governos ao redor do mundo vêm tentando combater a discriminação e o cerceamento da liberdade individual baseados em orientações sexuais, outros lugares tentam a todo custo nos trazer de volta aquele doce gostinho da Idade Média.

Como resultado disso, centenas de gays estão sendo escorraçados, violentados e até mortos na Rússia, enquanto tantos outros pedem asilos para países próximos. Afinal, a nova lei anti-gay caiu como uma luva nas mãos dos “russos de bem”, que saíram de seus armários prontos para atacarem e humilharem o maior número de homossexuais que virem pela frente, sem esquecer – claro – de publicar os vídeos-exemplo na internet. E tudo isso veladamente apoiado pelo governo intolerante, homofóbico e criminoso de Putin.

Sobre isso, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, já reagiu com palavras fortes: “O ódio, qualquer que seja, não deve ter lugar no século XXI”. E pediu que todos “levantem as vozes contra os ataques às lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais”. Ah! Mas espera! Ban também já confirmou presença na cerimônia de abertura das Olimpíadas. Afinal, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Será mesmo? Será que não deveríamos esperar mais da ONU, a proclamadora da Declaração Universal dos Direitos Humanos? Será que abaixar a cabeça e levantar a tocha olímpica nesse momento é mesmo uma atitude sensata?

Enquanto isso, no Brasil, o presidente da Confederação Brasileira de Desportes na Neve afirmou que “os atletas brasileiros estão concentrados em obter bons resultados e não devem entrar na polêmica que cerca os Jogos”. Afinal, o que a gente tem a ver com o que está acontecendo lá na Rússia?

Na verdade, política, visibilidade internacional, medalhas e tantos outros interesses sempre estiveram e sempre estarão acima dos direitos humanos. E apenas belos discursos não irão mudar a dor de milhões de pessoas que definham em países onde amar ainda é ilegal, imoral e anormal.

Se o próprio vídeo produzido pela ONU afirma que “todos os países são obrigados pela Carta Internacional dos Direitos Humanos a proteger todos as lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros da tortura, discriminação e violência”; o que mesmo a ONU está fazendo participando das Olímpiadas de Sochi? Está aí um enigma que não consegui desvendar.

Bem, só nos resta mesmo fazer a nossa pequena parte contra a discriminação e violação dos direitos humanos. Mais amor e mais cor, por favor. Assim mesmo, como sugere o site To Russia with Love =)

Russia

Uganda – O pior lugar do mundo para ser gay

Para quem ainda tem dúvidas do que o fundamentalismo religioso pode fazer com a vida de um país, sugiro assistir ao documentário da BBC “O pior lugar do mundo para ser gay”.

É preciso ter muito estômago para conseguir ver 51 minutos de muita humilhação, violência física e psicológica e marginalização a que os gays são submetidos diariamente na Uganda.

Lá a homofobia é completamente generalizada e o sentimento de “morte aos gays” é cultuado nas ruas, lares, escolas, igrejas e na mídia, que chega inclusive a divulgar fotos de homossexuais com o carimbo “Procura-se!”.

“Eu odeio os homossexuais”, “essas pessoas deveriam ser presas pra sempre ou morrer”, “queria ter o direito de matá-los” são algumas das frases acolhedoras que o apresentador da BBC encontra nas ruas de Uganda. E a justificativa é sempre a mesma: a bíblia condena a homossexualidade.

Mais de 80% da população desse país africano é formado por cristãos, divididos entre católicos e anglicanos, o que só nos dá mais uma prova de como o fundamentalismo pode contaminar qualquer tipo de religião ou crença.

Ao terminar de ver o filme, a sensação de angústia e incredulidade só me fez pensar numa coisa: como a fé cega, o fundamentalismo e, claro, a ignorância podem tornar as pessoas tão cruéis? E a crueldade escoltada por uma bíblia é mais feia de se ver.