Nossa alienação de todo dia

“(…) Quando o Sujeito não se reconhece como produtor das obras e como sujeito da história, mas toma as obras e a história como forças estranhas, exteriores, alheias a ele e que o dominam e perseguem, temos o que Hegel designa como alienação.”

Estava eu lendo um texto de Marilena Chauí sobre Ideologia, quando caí nesse trecho aí de cima sobre alienação.

Longe de mim querer discutir teoria, afinal estou bem no meio da leitura ainda eheh. Mas parei e fiquei pensando em como nós somos, muitas vezes, alienados de nossa própria realidade e o quanto nos esquivamos dela. Como o brasileiro realmente acredita que não tem nada a ver com o que acontece em sua volta e absolutamente nenhuma responsabilidade em coisas que interferem diretamente em sua vida.

Comecemos pela política. Afinal, todo político é corrupto e todos vão roubar e destruir o país por nossas costas. E, claro, não somos nós que escolhemos esses políticos. Também nem somos nós que nos omitimos de escolhê-los, votando branco ou nulo – deixando que outras pessoas decidam isso por nós. Não somos nós que optamos pela preguiçosa desculpa de que não adianta pesquisar propostas, trajetórias e antecedentes dos candidatos para tentar, ao menos, melhorar a situação.

Passemos agora por nosso trânsito. As nossas cidades grandes estão um inferno, com engarrafamentos insuportáveis, horas e horas de carros parados e eternidades para chegar aos nossos destinos. Mas também não é culpa nossa que nem cogitamos a possibilidade de deixarmos nossos carros em casa e tentarmos o transporte público. Ah claro! “Mas o transporte público no Brasil é um fiasco. Sem condições”! Eu gostaria de fazer uma enquete com todas as pessoas que falam isso e saber quantas dessas realmente tentaram usar, ao menos uma vez, o famigerado busão. Sei que aqui em Brasília o que mais escuto – de brasilienses e de gente de fora – é que nessa cidade não dá pra viver sem carro. Agora pergunte quantos desses já tentaram isso ao menos uma vez? (ok, isso é assunto pra outro post).

E, por fim, pensemos na falta de conservação de nossas cidades e preservação do meio ambiente. Impressionante como a gente vê tanta sujeira pelas ruas, tantos alagamentos, tanto desmatamento, etc. É um absurdo termos que conviver com tudo isso. Afinal, não somos nós que jogamos lixos no chão, arremessamos objetos pelas janelas dos carros, entupindo assim as galerias e contribuindo com os alagamentos. Também não somos nós que não fazemos seletas coletivas em casa, procuramos usar materiais biodegradáveis ou levamos nossa ecobag às compras.

Com alguns poucos exemplos já dá pra começarmos a refletir sobre o quanto precisamos mudar em nossas atitudes e nos sentir responsáveis sim por grande parte do que acontece em nossa volta. Acredito que o primeiro passo para exercermos efetivamente nossa cidadania é nos sentirmos parte ativa desse coletivo. Clichê tão batido, que a gente escuta o tempo todo, mas parece que não entra: se queremos alguma mudança, definitivamente, ela tem que partir primeiramente de nós.

O simples fato…

“O simples fato de a maioria, por maior que seja, concordar com uma determinada lei, ainda que com convicção, não faz com que ela seja uma lei justa.”

(Michael J. Sandel – Justiça)

Inauguro essa singela seção do blog com uma frase que encontrei no livro Justiça – O que é fazer a coisa certa, do professor da Harvard Michael J. Sandel. O trecho é trazido no capítulo sobre Kant, em que Sandel discorre sobre a questão de direitos humanos para aquele autor.

Mas lembrei por acaso disso ao ler algumas coisas sobre os absurdos risíveis da CDH de Marco Feliciano, que tenta agora emplacar um plebiscito sobre a legitimidade ou não do casamento homoafetivo. Como se ele e seus comparsas não soubessem que direitos e garantias individuais nunca poderão ser decididos dessa forma, que isso é algo tão inconstitucional quanto ilógico. Eles sabem, porém usam um argumento que certamente consegue convencer a multidão de ignorantes que cegamente os segue.