Ônibus novos pra quem?

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Desde o finzinho do ano passado, começaram a circular uns ônibus novos aqui por Brasília. Parece que ainda não chegaram todos, mas é certo que já dá pra notar alguma diferença na cidade. Aquelas sucatas caindo aos pedaços finalmente estão sendo aposentadas e a população agora pode contar com um pouquinho de conforto.

Eu moro no Plano Piloto, próximo ao trabalho e, sim, vou e volto todos os dias de ônibus. Levo em média longos 5 minutos dentro de um ônibus vazio, onde vou sentada, escutando minhas músicas e admirando a paisagem, até chegar ao trabalho.

Sei que não dá pra comparar a facilidade do Plano Piloto com as cidades do entorno, onde a deficiência no transporte público faz com que centenas de pessoas encarem infindáveis engarrafamentos todos os dias. Mas sei também que, para quem mora no Plano, como Asa Sul e Asa Norte, o velho e bom “baú”, no linguajar candango, pode ser bem viável. Mas não é exatamente essa a imagem passada por quem mora aqui, né? Afinal, “em Brasília, não dá pra viver sem carro.” “Como você consegue viver aqui sem dirigir?”. Essas são algumas das frases que escuto desde que cheguei, por brasilienses – e até gente de fora – que me olham e retrucam de boca aberta, como se eu fosse um E.T, por – olha só! –  andar de ônibus.

O que me parece é que a maioria das pessoas que povoa a capital federal possui uma mentalidade tão individualista e antiquada, daquelas que ainda acham que andar de carro é “sinônimo de status”. Daí, para essas pessoas, enfiar o pé num ônibus é um ato, digamos assim, até meio vergonhoso. O resultado disso são ônibus como esse aí rodando o plano piloto na maioria das vezes vazios, e as calçadas, vias e qualquer outro espaço da cidade lotados de carros.

Imagina se pelo menos as pessoas que moram no Plano resolvessem ir e voltar do trabalho de ônibus? Como o trânsito seria mais tranquilo, as ruas menos empestadas de carros estacionados irregularmente e a cidade até mais alegre?

E para corroborar ainda mais com esse pensamento voltado para o próprio umbigo de muitos brasilienses, o Governo do Distrito Federal teve a ideia de jerico de lançar um projeto que privilegia por completo a circulação de veículos individuais: um imenso estacionamento subterrâneo na Esplanada. De tão nonsense o projeto, não se ouve mais falar nele. Mas não se sabe ainda se vai sair ou não. E não é de se admirar que muita gente por aqui tenha achado essa a ideia “da hora”.

É triste ver como governo e população, ainda nos dias de hoje, podem demonstrar não ter a menor noção de sustentabilidade, do impacto ambiental que o aumento de carros pode provocar e da importância de um transporte público de qualidade e, principalmente, de utilizar esse transporte.

Por isso, meu desejo tardio para 2014 é que mais e mais pessoas se arrisquem sim a circular de ônibus pelas ruas de Brasília, passem a perceber as reais deficiências e até as poucas vantagens do nosso transporte público, pois só assim, iremos ter forças para exigir um transporte eficiente para nossa querida cidade. Afinal, do que adianta lutar por algo que não temos a menor pretensão de usufruir?

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Azul é a cor mais quente?

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Aproveitando esse calor de Brasília, passo aqui pra comentar um pouco sobre o filme mais quente que vi nos últimos tempos – lembrando que assistirei Ninfomaníaca ainda essa semana, hein! eheh Mas bem. “Azul é a cor mais quente” não chama a atenção simplesmente pela polêmica cena de 7 minutos de sexo explícito, mas sim pela delicadeza que o diretor conseguiu passar, na minha opinião, em todo o restante do filme, ao apresentar de forma tão pura e crua o primeiro amor adolescente, extrapolando até mesmo a questão da homossexualidade.

Porém, o que mais me chamou a atenção e que me fez pensar muito no filme, tecer ideias, discutir em botecos e elocubrar mesmo foi o momento do fim da relação das duas garotas, a traição de Adèle e a reação de Emma. Na verdade, nem é sobre o filme em si que eu gostaria de comentar. É sobre algo que extrapola o filme e toca em nossas vidas mesmo, em nossas relações diárias.

Nossa, como me tocou a tristeza vivida por Adèle, quando ela se percebe tão abandonada e solitária na própria casa em que dividia com a namorada. A forma como Emma se despenca para o lado de outra garota, que possuía mais afinidades com ela, e escanteia Adèle chega a dar dó. É no meio dessa angústia que Adèle acaba traindo a namorada, se arrepende e, por fim, acaba contando a verdade. Bem, como resultado, a adolescente é expulsa de casa por Emma.

Pois é, isso me fez pensar em como às vezes conseguimos ser tão covardes e fracos. Não arrumamos coragem para “pró-ativamente” finalizar o que já terminou dentro de nós há tempos e levamos o outro a um sofrimento praticamente desnecessário. Foi essa sensação que tive durante Azul… Ora, Emma já estava “separada” de Adèle há algum tempo, evitando a garota e passando noites a fio com a nova colega. Mas, daí a conseguirmos chegar na outra pessoa e dizer duramente que não dá mais, são outros quinhentos.

É bem aí que mora o perigo. Quem nunca viveu ou percebeu por perto uma situação como essa? Em que, até inconscientemente, se escolhe o caminho aparentemente mais prático e fácil: destruir aos poucos e quase que sadicamente o que resta do relacionamento, deixar a outra pessoa tão, mas tão confusa quanto ao que está acontecendo que, de repente, se vê sem saber como agir e acaba: ou tomando a atitude de terminar o relacionamento – “que coisa ela quis terminar, não sei por que, mas também fazer o quê, né?” (não, não. Era isso mesmo que você estava querendo) – ou, pior, fazendo alguma besteira, como aconteceu com Adèle (aí, é melhor ainda, pois você ainda sai de cena como a traída e vítima na história).

Por que será que é tão difícil terminar um relacionamento? Será que é porque ficamos com medo de magoar o outro? Só que aí acabamos prolongando um sofrimento, deixamos a relação tão rançosa e o final, que sempre chega, acaba sendo ainda mais dolorido para ambas as partes.

Bem, foi sob esse aspecto que o filme mais me prendeu, me fez refletir e, sim, querer ter ele lá na minha prateleira… E vocês, gostaram do filme? =)

Nossa alienação de todo dia

“(…) Quando o Sujeito não se reconhece como produtor das obras e como sujeito da história, mas toma as obras e a história como forças estranhas, exteriores, alheias a ele e que o dominam e perseguem, temos o que Hegel designa como alienação.”

Estava eu lendo um texto de Marilena Chauí sobre Ideologia, quando caí nesse trecho aí de cima sobre alienação.

Longe de mim querer discutir teoria, afinal estou bem no meio da leitura ainda eheh. Mas parei e fiquei pensando em como nós somos, muitas vezes, alienados de nossa própria realidade e o quanto nos esquivamos dela. Como o brasileiro realmente acredita que não tem nada a ver com o que acontece em sua volta e absolutamente nenhuma responsabilidade em coisas que interferem diretamente em sua vida.

Comecemos pela política. Afinal, todo político é corrupto e todos vão roubar e destruir o país por nossas costas. E, claro, não somos nós que escolhemos esses políticos. Também nem somos nós que nos omitimos de escolhê-los, votando branco ou nulo – deixando que outras pessoas decidam isso por nós. Não somos nós que optamos pela preguiçosa desculpa de que não adianta pesquisar propostas, trajetórias e antecedentes dos candidatos para tentar, ao menos, melhorar a situação.

Passemos agora por nosso trânsito. As nossas cidades grandes estão um inferno, com engarrafamentos insuportáveis, horas e horas de carros parados e eternidades para chegar aos nossos destinos. Mas também não é culpa nossa que nem cogitamos a possibilidade de deixarmos nossos carros em casa e tentarmos o transporte público. Ah claro! “Mas o transporte público no Brasil é um fiasco. Sem condições”! Eu gostaria de fazer uma enquete com todas as pessoas que falam isso e saber quantas dessas realmente tentaram usar, ao menos uma vez, o famigerado busão. Sei que aqui em Brasília o que mais escuto – de brasilienses e de gente de fora – é que nessa cidade não dá pra viver sem carro. Agora pergunte quantos desses já tentaram isso ao menos uma vez? (ok, isso é assunto pra outro post).

E, por fim, pensemos na falta de conservação de nossas cidades e preservação do meio ambiente. Impressionante como a gente vê tanta sujeira pelas ruas, tantos alagamentos, tanto desmatamento, etc. É um absurdo termos que conviver com tudo isso. Afinal, não somos nós que jogamos lixos no chão, arremessamos objetos pelas janelas dos carros, entupindo assim as galerias e contribuindo com os alagamentos. Também não somos nós que não fazemos seletas coletivas em casa, procuramos usar materiais biodegradáveis ou levamos nossa ecobag às compras.

Com alguns poucos exemplos já dá pra começarmos a refletir sobre o quanto precisamos mudar em nossas atitudes e nos sentir responsáveis sim por grande parte do que acontece em nossa volta. Acredito que o primeiro passo para exercermos efetivamente nossa cidadania é nos sentirmos parte ativa desse coletivo. Clichê tão batido, que a gente escuta o tempo todo, mas parece que não entra: se queremos alguma mudança, definitivamente, ela tem que partir primeiramente de nós.