Noite de lua

“no céu uma grande cratera
com cara de lua amarela”
(Luis Turiba)

 

 

 

P.S: Peguei esse trecho do poema “Observador lunático”, que achei no site Brasília Poética, uma bela homenagem à capital, com poemas, fotografias, crônicas e depoimentos. Ah! E tem também um livrinho de visitas virtual para você deixar lá o seu recadinho pra cidade.

Crônica de um domingo quase sem futebol

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Domingo passado, fui toda animada para ver o meu primeiro jogo de futebol num estádio. Estádio Mané Garrincha, em Brasília, aquela coisa nova, imponente e bonita de se ver – por dentro. Em frente ao estádio, um estacionamento que não estava lotado, já anunciando a tranquilidade e diversão que deveria ser aquela tarde de domingo.

Mas eis que, ao sairmos do carro, um pouco a frente, nos deparamos com a maior muvuca na porta do campo, centenas de pessoas se acumulando para comprar ingressos para o jogo, que estavam sendo vendidos em uma vanzinha ali em frente. Sério mesmo. Um jogo num estádio com mais de 15 entradas, com capacidade para mais de 70 mil pessoas, teve seus ingressos vendidos num carrinho. Mas o detalhe maior não é esse. Na verdade, alguns pouquíssimos ingressos estavam sendo vendidos pela janela do veículo. Porque, na real mesmo, não havia ingressos, os ingressos não foram impressos. E sabe por quê? Porque a organização do Torneio Internacional de Futebol Feminino chegou à brilhante conclusão de que ninguém iria querer ver mulher jogando, mesmo que se tratasse das mulheres da seleção brasileira de futebol feminino.

Resultado disso foi assistir durante mais de quarenta minutos um público impaciente querendo que os portões fossem liberados – afinal eram mais de 50 mil cadeiras livres, por baixo, e nenhum ingresso para ser vendido – e só conseguir entrar no campo já no segundo tempo da partida.

Bem, será que o nosso santo machismo de cada dia deixa as pessoas tão bitoladas a ponto de não ver que: SIM, nós queremos torcer pela seleção feminina, SIM, brasiliense adora esse tipo de programa e, principalmente, SIM, nossas jogadoras merecem a mesma organização, incentivo, divulgação e espaço midiático que qualquer outra seleção?

Bolsa Família: Por que tanto preconceito?

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2014 chegando e, junto com ele, a proximidades das eleições presidenciais. Como era de se esperar, já começamos a ver discussões mais acaloradas sobre política, governo, políticas públicas de sucesso, de fracassos; um ataque dali, outro daqui… E um dos alvos preferidos da oposição continua sendo, claro, o Bolsa Família.

Pois bem, por ter lido um bocado sobre ele ultimamente, resolvi resgatar um texto que escrevi outro dia sobre o tema em outro blog tão não acessado como esse eheh. É, porque sou dessas que também adora discutir política.

Porém, não gostaria de abordar a questão do ataque pela oposição política, partidos e candidatos, mas sim o que mais me impressiona: o ataque de pessoas comuns (por comuns quero dizer sem interesses diretamente eleitoreiros) a um programa criado para ajudar outras pessoas comuns.

Será que é tão difícil assim se colocar no lugar do outro? Por quê? Vejamos. Não é raro encontrar hoje frases como essas espalhadas pelas redes sociais:

– “Não adianta dar o peixe, tem que ensinar a pescar!”

– “Não autorizei ninguém a usar o dinheiro que pago de imposto para dar esmolas a vagabundo”.

– “Não adianta dar dinheiro, tem que dar a essas pessoas uma educação de qualidade.”

– “A assistência tem que ser provisória, senão vira dependência, vira parasitismo.”

– “Conheço pessoas que não vão atrás de emprego para continuar recebendo a bolsa, conheço até várias outras que têm filhos apenas para receber o auxílio.”

Pois é. Impossível não supor que um baita preconceito permeia o discurso de quem realmente acredita que milhões de pessoas iriam optar por não trabalhar e não ter uma vida digna para receber míseros 70 reais mensais. Mas preconceituoso ainda seria acreditar que alguém iria se esforçar a ter pencas e pencas de filhos para receber uma bolsa que mal daria para sustentar uma pessoa só, quiçá ela e mais uma criança.

Voltando à primeira questão. Será que a dificuldade de se colocar no lugar do outro e tentar, por alguns segundos, se imaginar numa situação de extrema pobreza, é o que faz essas pessoas não perceberem o quão humilhante pode ser estar nessa condição de dignidade humana zero?

E não estou falando aqui em criticar o Programa, pois toda crítica é válida e sabemos que muito ainda falta para termos um conjunto de políticas públicas que permitam: a saída da extrema pobreza – educação de qualidade – capacitação profissional – pleno emprego. Mas estou falando daqueles que escancaradamente usam a crítica ao programa para camuflar um preconceito contra uma classe que se encontra em situação inferior.

Ora, nós sabemos que o programa em questão é destinado a famílias que estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, não possuem nem as necessidades básicas atendidas, portanto, não teriam condições nenhuma para pensarem em outras prioridades, como educação, profissionalização, etc. Aliás, era isso que já mostrava aquela pirâmide de Maslow, lembra?

E é por isso que o Programa exige, entre outras contrapartidas, a frequência escolar dos filhos, pois, por mais difícil que seja difícil encaixar os adultos em programas de profissionalização que deem resultados a curto ou médio prazo, temos que tentar ao menos garantir um futuro minimamente digno para as próximas gerações. Ou não?

Para essas famílias, aquele discurso de “o que falta é uma educação de qualidade” está longe, mas muito longe de fazer algum sentido. Ou alguém realmente acha que bastaria “avisar” para esses pais – que dormem e acordam literalmente sem ter o que comer – que agora o Brasil tem boas escolas públicas e assim eles iriam correndo matricular seus filhos nelas.

Não, infelizmente a questão aí é bem mais delicada, tão delicada que fica até difícil de conseguirmos imaginar o que é passar os anos sem perspectiva alguma; passar dias e dias tendo que olhar para o rosto do filho com fome e dizer “hoje não temos o que comer”.

Ok. Mas saindo de toda essa reflexão pessoal do colocar-se no lugar do outro e pensar “ainda bem que não sou eu que me encontro nessa situação degradante”, bastaria uma rápida olhada nos jornais, sites e afins para ver que, sim, existem milhões de brasileiros saindo voluntariamente do Programa; mais de 50% dos participantes possuem algum trabalho ou ainda que os índices de aprovação dos estudantes que recebem o bolsa família vem melhorando e muito.

Ora, é óbvio que precisamos ainda de muitos e melhores programas de profissionalização para essa parcela da população, que precisamos de muito mais estímulo ao trabalho e que a educação no Brasil está longe de ser a ideal. Mas tão óbvio quanto isso é a certeza de que o investimento nessas áreas – ou a falta dele – em nada exclui a necessidade de programas como o Bolsa Família. Teremos ainda por um bom tempo a necessidade de programas de transferência de renda e isso não é exclusividade de um governo ou de outro e muito menos do Brasil. É só lembrarmos que esse tipo de incentivo começou em governos passados e que hoje o Brasil exporta o exemplo do Bolsa Família para outros países, como os Estados Unidos por exemplo. Sim! Os Estados Unidos possuem o Oportunity NYC, que foi inspirado em nosso Bolsa Família.

Por fim, saber que estamos contribuindo, com nossos impostos ou seja lá com o que for, para que milhões de brasileiros consigam sair de uma situação pela qual nunca desejaríamos passar nem em sonho, não deveria ser algo realmente perturbador ou revoltante. Revoltante sim seria saber que existem, bem aqui do nosso lado, tantas pessoas em condições deploráveis e nada estaria sendo feito para tentar mudar essa realidade.